sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pó nojento

Ter deixado a porta aberta foi um lapso imperdoável. Não digo um pecado, pois seria cômico dizê-lo.
Você é um canto. Muito boa definição de ti. Um canto. Saiu pela porta e se transformou num canto.
Há algo mais desprezado por todos do que o canto?
Não.
Um canto é um lugar não ido, não visto, em alguns casos extremos até não limpo, ainda, não percebido, não usado, empoeirado, um canto. Não amado. Nunca amado.
Há poeira nos cantos.
Você é um cão no mundo, alguém repugnante.
Você é ruim de olhar, de falar, de pensar, é como um saco de lixo podre: vai derramando mau cheiro e dejetos por onde passa.
Talvez te odiar seja muito. Deve ser o desprezo seu companheiro eterno.
Você subverteu a ordem bíblica: porque do pó vieste, no pó viveste e para o pó voltaras, sem nada ter deixado nessa vida, senão nojo, asco.
Morta viva. Canto.
A porta era do inferno. Aberta você saiu. Demônio rebaixado, decaído. No limbo é ainda feia entre os devassados.
Quem é você?
Um ser rastejante, um corvo podre que ousou tentar tirar o que era meu.
Pobre demônio putrefeito!

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